Descrição
O que é um enunciado? Em que condições históricas determinados dizeres podem emergir, circular, ser reconhecidos como verdadeiros e produzir efeitos sobre os sujeitos? E de que modo esses dizeres se articulam às relações de poder que atravessam uma sociedade?
Partindo dessas questões, este livro retoma a teoria foucaultiana do enunciado como um instrumento para a descrição das relações entre verdade, poder e subjetivação. Na perspectiva arqueológica, a análise apreende os acontecimentos discursivos em suas condições históricas de existência. Já a genealogia permite avançar na problematização das relações entre saber, poder e verdade, bem como dos modos pelos quais os sujeitos são governados e constituídos.
Distanciando-se das categorias tradicionais da linguística, como frase, proposição e ato de fala, o enunciado é compreendido como uma função de existência, ou seja, uma modalidade particular de dizer que somente pode emergir, circular e adquirir materialidade em determinadas condições históricas. Sua singularidade não está apenas na forma linguística, mas no conjunto de relações que torna possível sua existência e sua inserção em um campo discursivo.
A partir desse pressuposto, a obra percorre diferentes objetos e acontecimentos: as disputas em torno da memória histórica do Brasil; os discursos políticos, midiáticos e publicitários; os mecanismos de controle e de culpabilização relacionados ao corpo feminino; os dispositivos de masculinidade e as tecnologias de virilidade; e os discursos que produzem modos de ver, compreender e governar a velhice. Em todos esses campos, o que está em questão é o funcionamento dos enunciados em redes nas quais saberes, poderes, visibilidades e formas de resistência se articulam.
O percurso permite compreender que os enunciados não apenas dizem sobre os sujeitos, os corpos e os acontecimentos: eles participam de sua constituição. Ao mesmo tempo em que podem sustentar regimes de verdade e formas de governo das condutas, podem também fazer emergir resistências, contracondutas e processos de dessubjetivação capazes de abrir outras possibilidades de existência.
Assim, este livro propõe uma maneira de fazer da análise discursiva uma ferramenta que possibilita interrogar o presente e os processos de subjetivação que atravessam nossas vidas.












